Descrição de fotos e imagens permite que pessoas com deficiência visual compreendam a cena retratada

Um dos trabalhos realizados pela Iguale Comunicação de Acessibilidade é a elaboração de descrições para fotografias e imagens, como as desenvolvidas para algumas das cenas dos filmes Colegas e Intocáveis, exibidos ao longo da programação da Semana Senac de Inclusão e Diversidade do Senac Consolação, em São Paulo. Com a descrição, a pessoa com deficiência visual consegue compreender o que há retratado na imagem em questão, contextualizando-se. Abaixo seguem alguns exemplos:

Colegas: 

Descrição da cena
Três jovens, personagens principais, estão fantasiados e andando num carro conversível vermelho por uma estrada deserta e arborizada. Na frente, dirigindo e com um largo sorriso no rosto, Stalone (Ariel Goldenberg). Ao seu lado, Aninha (Rita Pokk), sorrindo com o braços levantados para o alto. Sentado no encosto do banco traseiro, com os olhos fechados e braços abertos em crucifixo, está Márcio (Breno Viola).

Intocáveis:

Descrição da cena do filme Intocáveis: Um homem cadeirante e seu cuidador, personagens principais do filme, se divertem em meio a uma grande área coberta por neve, com árvores desfolhadas ao fundo, iluminadas pelo sol alaranjado. Eles estão sorrindo, bem agasalhados em meio a flocos de neve espalhados no ar.
Um homem cadeirante e seu cuidador, personagens principais do filme, se divertem em meio a uma grande área coberta por neve, com árvores desfolhadas ao fundo, iluminadas pelo sol alaranjado. Eles estão sorrindo, bem agasalhados em meio a flocos de neve espalhados no ar.

Bienal Sesc de Dança 2013 tem espetáculos com audiodescrição

São Paulo, 9 de setembro de 2013 – A Iguale Comunicação de Acessibilidade é a responsável pela audiodescrição de espetáculos em cartaz na Bienal Sesc de Dança 2013, que acontece no Sesc Santos até o dia 12 de setembro. A audiodescrição é um recurso inclusivo que transforma do visual em verbal os movimentos dos bailarinos, os elementos dos cenários e figurinos, em uma descrição sonora que permite ao público com deficiência visual entender os detalhes das coreografias.

Nos dias 5, 6 e 8 os espetáculos com audiodescrição da Iguale Comunicação de Acessibilidade foram: ‘O que o Corpo não lembra’, da Cia Última Vez (Bélgica) e ‘Carta de Amor ao Inimigo’, do Grupo Cena 11, da Cia de Dança (SC). Já nos dias 10 e 11, terça e quarta-feira desta semana, o espetáculo ‘A Sagração da Primavera’ de Xavier Le Roy (França), estará em cartaz com audiodescrição às 21h30.

Para o diretor da Iguale Comunicação de Acessibilidade, Maurício Santana, participar da experiência de levar a audiodescrição para um evento do porte da Bienal Sesc de Dança 2013 é gratificante. “É maravilho poder transformar em palavras os movimentos, as nuances e as interações da dança. Já foram feitas algumas apresentações com audiodescrição para espetáculos de dança, e agora a Bienal reforça a ideia de que a audiodescrição esta ampliando seu universo de atuação e seu público, o que é muito importante”, conta entusiasmado.

Agenda:

Bienal Sesc de Dança 2013

Dias 10 e 11 de setembro

Espetáculo: A Sagração da Primavera, da Cia Xavier Le Roy (FRA).

Horário: 21h30.

Duração: 42 minutos

Local: Sesc Santos, Rua Conselheiro Ribas, 136.

 

Mais informações:

Liliana Liberato

Assessora de Imprensa

(11) 9 7999-2802

imprensa@iguale.com.br

Chega de shhh! A acessibilidade vai muito além de rampas

Existem recursos que podem garantir o direito ao acesso a informação, cultura e lazer com autonomia, mas a oferta ainda é pequena

por Xandra Stefanel publicado 19/07/2013 12:01
JR. PANELA/RBA
O que os olhos não veem

Celso Nóbrega: “É chato não ter os próprios meios de saber e perceber o que está acontecendo. Durante o filme, tenho de perguntar para a outra pessoa”

Na maioria das vezes que Celso Nóbrega vai ao ci­nema, em Fortaleza, é re­preendido pelos outros espectadores. Cego desde que nasceu, há 28 anos, ele não consegue entender um filme inteiro sem que alguém lhe explique as cenas que não têm como ser compreendidas apenas pelos diálogos entre os atores.

“Eu vou ao cinema porque gosto muito e tenho pessoas da família, namorada e amigos que me ajudam a entender informações que só os olhos podem captar. É chato não ter os próprios meios de saber e perceber o que está acontecendo. Durante o filme, tenho de perguntar para a outra pessoa o que está acontecendo, e isso atrapalha. Quem está ao lado não compreende e fica fazendo ‘shhhhh’, manda calar a boca”, desabafa o jornalista, publicitário e mestrando em Linguística Aplicada na Universidade Estadual do Ceará.

Segundo o último Censo do IBGE, dos mais de 45,5 milhões de pessoas que declararam ter pelo menos uma deficiência, 35,8 milhões não enxergam ou têm dificuldade para enxergar. E outros 9,7 milhões têm algum grau de deficiência auditiva. Como essas pessoas fazem para ter acesso a filmes, peças teatrais, exposições e outros eventos culturais?

Há pouco mais de uma década, começaram a surgir no Brasil recursos tecnológicos como audiodescrição e legendagem de som para possibilitar maior autonomia às pessoas com deficiência visual e auditiva. Mas tais recursos ainda estão longe de alcançar a popularidade.
A audiodescrição é uma espécie de tradução das cenas em palavras, uma narração detalhada que a pessoa com deficiência visual recebe por meio de um fone de ouvido: cenário, figurinos, efeitos especiais, mudanças de tempo e espaço, leitura de créditos e expressões faciais e corporais dos atores são explicados entre os diálogos.

Já a legendagem de som descreve, na tela, os sons para as pessoas com deficiência auditiva. Sem esses recursos, um cego não compreende, por exemplo, uma cena sem falas nem ruídos, e um surdo não tem condições de assimilar informações sonoras que não aparecem nas legendas convencionais.

Sensibilização

A bancária e tradutora aposentada Sônia Maria Ramires de Almeida, de 65 anos, descobriu aos 22 que sofre de otosclerose, doença genética que provoca a perda progressiva da audição. A partir de então, passou a usar aparelhos que têm como função ampliar os sons. Por esse motivo, ir ao cinema e ao teatro, por exemplo, é praticamente impossível.

“Em teatro e cinema o problema surge a partir da péssima acústica de muitas salas. Existe um eco, uma reverberação que as pessoas que ouvem normalmente conseguem ‘apagar’. No caso de quem usa aparelhos auditivos, o aparelho capta todo o som ambiente, ruídos de gente caminhando, se movendo nas poltronas, abrindo embalagem de chocolate, cochichando etc. Por isso, fica difícil entender as falas e a história,” lamenta Sônia, reforçando que existe uma enorme diversidade na surdez, assim como soluções específicas para a acessibilidade de cada grupo.

“Por que eu vou pagar o ingresso inteiro no cinema para assistir a meio filme? Minha compreensão de um filme sem audiodescrição é 50% menor. Se o filme for em inglês e eu não souber falar inglês, também não consigo ler legenda… Então, para que eu vou ao cinema ou ao teatro? Por isso participar dessas coisas nunca fez parte do dia a dia das pessoas cegas. Agora começa a existir possibilidade”, afirma Paulo Romeu, de 55 anos, militante pela acessibilidade das pessoas com deficiência.

Ele deixou de frequentar cinemas e teatros aos 22, quando perdeu completamente a visão em um acidente automobilístico. Depois se formou na área de Tecnologia da Informação e participou de grupos de trabalho para a implementação de recursos acessíveis na televisão e nos caixas eletrônicos. Percebeu possibilidades de pessoas­ como ele alcançarem maior autonomia não só nos espaços culturais, mas também em casa, ao ver televisão.

Em 2006, Paulo participou da elaboração da Portaria 310, que define normas de acessibilidade para pessoas com deficiência na programação das televisões. A portaria do Ministério das Comunicações previa legendagem de som e interpretação na linguagem de sinais (Libras) para surdos e audiodescrição para cegos. No início, a audiodescrição deveria ser oferecida duas horas por dia nas emissoras de televisão, chegando, em dez anos, a 100% da programação. Mas acabou se limitando a, inicialmente, duas horas por semana, chegando a 20 em dez anos. Como parte dessa progressão, no último 1º de julho passou a ser obrigatório, para as emissoras de TV abertas brasileiras, oferecer quatro horas semanais de programação audiodescrita.

Apesar de a acessibilidade para cegos e surdos ainda não ser regra na TV, mesmo que timidamente já chegou a outros espaços culturais. “Para as emissoras, para as quais existia a obrigação legal, houve uma resistência enorme. Já para cinema, teatro, seminários, palestras, em que não existe nenhuma lei que obrigue a audiodescrição até o momento, já temos pessoas fazendo espontaneamente”, compara Paulo Romeu. “Há uma sensibilização. O produtor de teatro que resolveu fazer uma exibição com audiodescrição vê aquela quantidade de pessoas sentadas na plateia usando o fone de ouvido, rindo e chorando junto com os outros durante a peça.”

Adaptação

Segundo o Censo 2010, dos 5.565 municípios brasileiros apenas 829 têm alguma legislação no que se refere à adaptação de espaços culturais, artísticos e desportivos para facilitar o ingresso, locomoção e acomodação de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. E isso não significa que essas cidades possuem legislação voltada para aqueles que têm deficiência visual ou auditiva. Na maioria das vezes, quando se menciona a acessibilidade nesse tipo de espaço, pensa-se prioritariamente em rampas.

Mesmo assim, museus como o do Futebol e a Pinacoteca do Estado, em São Paulo, e o Teatro Carlos Gomes, no Rio de Janeiro, além de galerias ou exposições pontuais, já fazem parte do roteiro cultural de muitas pessoas com deficiência visual ou auditiva. O Teatro Carlos Gomes, por exemplo, ofereceu 24 apresentações acessíveis de março de 2012 a abril deste ano, com cerca de 50 pessoas com deficiência por sessão, segundo a assessoria de imprensa.

É para esse tipo de atividade que o grupo Terra São Paulo promove passeios. O programa é definido de acordo com a oferta de eventos, mas, em geral, são saídas de quatro horas para visitar exposições, ver peças teatrais e filmes. Cada pessoa com deficiência é acompanhada por um voluntário que dispõe de todos os sentidos. “A ideia é que haja uma grande troca. Do mesmo modo que um voluntário tem coisas a apresentar para uma pessoa com deficiência, este também tem muito a contar para o voluntário”, diz Ricardo Panelli, criador do grupo.

“Para você ser um cidadão completo, não basta só trabalhar e ir embora para casa. Pessoas com deficiência têm acesso muito restrito para participar efetivamente da sociedade. Nosso objetivo é de contribuir e facilitar o acesso a esses eventos.”

Um dos passeios que o grupo organizou foi ao Festival Melhores Filmes, promovido em abril pelo CineSesc. Tradicional em São Paulo desde 1974, o evento passou a ter audiodescrição e open caption, a legendagem, em 2010. Na edição de 2013, todos os 40 filmes exibidos em mais de 100 sessões contaram com audiodescritores fazendo as narrações ao vivo.

O diretor da empresa que promoveu os serviços ao festival, Mauricio Santana, afirma que o profissional da audiodescrição deve ter amplo entendimento sobre a deficiência visual. “O audiodescritor vem da área de comunicação, letras, tradução e afins. Ele tem de ter percepção e sensibilidade diferenciadas, conhecer a linguagem do cinema, ter facilidade de improvisação, repertório e vocabulário amplos. Principalmente quando está roteirizando, se colocar no lugar da pessoa com deficiência para narrar o que é fundamental para o entendimento.”

Segundo Santana, o custo médio da audiodescrição para um filme de 120 minutos, por exemplo, é de R$ 3 mil a R$ 4 mil, o que engloba o processo de roteirização, revisão, consultoria de uma pessoa com deficiência, produção de estúdio, o trabalho do audiodescritor-ator e a finalização.

Usuário do recurso, Paulo Romeu questiona por que não haver mais oferta desses serviços de acessibilidade: “O que significa o custo da audiodescrição no orçamento de um filme? E em comparação com o que uma rede de TV paga de direitos autorais para os filmes que ela apresenta?” Quem não vê ou ouve acha que há um enorme valor. “Significa autonomia. A primeira vez que vi um filme com audiodescrição, coloquei o DVD e não precisei pedir a ninguém que acessasse o menu por mim.

Depois de tantos anos, me senti gente”, diz. Christine Villa, responsável pela programação do CineSesc, afirma que não há previsão para tornar toda a programação do cinema acessível. “Nossa intenção é democratizar as sessões e o nosso espaço e tornarmos o festival totalmente acessível. O Sesc percebeu que existe uma demanda de público que necessita desses recursos. A edição de 2013 apresentou um aumento significativo desses espectadores. Ainda é complicado expandirmos o serviço para toda a programação. Mas entendemos o Festival Melhores Filmes como um primeiro passo.”

Fora do eixo Rio-São Paulo, no entanto, a oferta de eventos culturais com recursos acessíveis é bem menor. É o caso de Fortaleza, segundo Vera Lúcia Santiago, professora do Programa de Pós-Graduação em Educação e em Linguística da Universidade Estadual do Ceará. Vera observa que a maioria dos produtores culturais não se preocupa em tornar seus produtos acessíveis, embora o Brasil disponha de profissionais altamente qualificados, que acabam encontrando dificuldade em conseguir trabalho e migrando para outras profissões.

“Já formei muitos alunos comprometidos com a audiodescrição, com a pesquisa e a acessibilidade. Fiz várias ações aqui no teatro, no cinema, no DVD, em exposições, espetáculos de dança. Os produtores se sensibilizaram, mas agora não querem pagar pelo serviço”, critica. “Uma maneira de resolver isso seria o governo colocar como contrapartida dos financiamentos de projetos culturais que os agraciados em editais tornassem seus produtos acessíveis”, sugere a professora.

Na opinião de Eduardo Cardoso, do Núcleo Interdisciplinar para Cultura Acessível da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), falta uma efetiva implementação das políticas públicas de inclusão existentes, já que o Brasil tem uma enorme legislação a respeito da acessibilidade. “Especificamente no caso das políticas de cultura acessível, a gente tem algumas iniciativas, mas há muito a ser feito ainda, principalmente no que se refere à maneira que serão postas em prática. É através de políticas que a gente começa a planejar o que é possível, viável e esperado.”

Fonte: Revista do Brasil – Número 85, Julho 2013

http://www.redebrasilatual.com.br/revistas/85/chega-de-shhhhh-6717.html

TV aberta: programação audiodescrita passa para 4h semanais a partir de hoje

O aumento do número de horas é um avanço, mas ainda é pouco diante da quantidade de conteúdo apresentado diariamente pelas emissoras

 Vale a partir desta segunda-feira, dia 1º de julho, o disposto na Portaria n.o 188, do Ministério das Comunicações, que obrigada as emissoras de TV aberta ampliar de 2h para 4h semanais a programação audiodescrita. A audiodescrição é um recurso acessível que compreende a narração, em língua portuguesa, integrada ao som original da obra audiovisual, contendo descrições de sons e elementos visuais e quaisquer informações adicionais que sejam relevantes para possibilitar a melhor compreensão desta, por pessoas com deficiência visual e intelectual.

“A ampliação do horário é importante e representa um avanço na luta dos direitos da pessoa com deficiência. Nós que trabalhamos nesta área e acompanhamos a legislação sabemos que ainda há muito o que avançar, mas são essas conquistas que fazem o país oferecer condições cada vez mais iguais aos seus cidadãos. Na Inglaterra, por exemplo, algumas emissoras já oferecem 50% da programação com audiodescrição, sendo que a lei exige 10%. O nosso desejo é que essa seja uma realidade também no Brasil, futuramente”, argumenta Mauricio Santana, diretor da Iguale Comunicação de Acessibilidade.

O aumento do número de horas vem a atender um dos anseios da pessoa com deficiência, no que se refere a ter mais acesso e melhor entendimento do conteúdo produzido pelas emissoras de TV; como novelas, programas humorísticos, jornalísticos, esportivos, infantis, de variedades, seriados, dentre outros. Além dos filmes publicitários (comerciais) exibidos durante os intervalos das programações. No entanto, mesmo com a ampliação, a carga horária ainda é pequena, devido à grande quantidade de material que as emissoras de TV, em todo o país, disponibilizam aos espectadores, diariamente.